Com 10 feminicídios em janeiro, 2026 começa como o ano mais letal para mulheres no RS

Com 10 feminicídios em janeiro, 2026 começa como o ano mais letal para mulheres no RS

Foto: Eduardo Ramos (Arquivo Diário)

O ano de 2026 já se inicia como o mais preocupante da série recente quando o assunto é feminicídio no Rio Grande do Sul. Em menos de um mês, 10 mulheres foram mortas em crimes classificados como feminicídio no Estado, número que, proporcionalmente, supera o ritmo registrado nos anos de 2023, 2024 e 2025.

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O dado ganha ainda mais peso quando analisado no panorama recente. Em 2023, o Rio Grande do Sul registrou 56.499 ocorrências de violência contra a mulher, o maior volume da série analisada. Naquele ano, os feminicídios consumados chegaram a 86, enquanto outros 237 casos foram classificados como feminicídio tentado.

Em 2024, houve uma redução no total de registros gerais, que caíram para 53.101 ocorrências, com 73 feminicídios e 236 tentativas.

Já em 2025, os números indicaram estabilidade em patamar ainda elevado: 52.711 ocorrências, 80 feminicídios e 264 tentativas.

Apesar da leve queda no total de ameaças, lesões corporais e estupros ao longo desses três anos, o feminicídio segue como o indicador mais resistente à redução. Agora, 2026 começa com 10 mortes em apenas 28 dias, o que acende um alerta imediato sobre a efetividade das políticas públicas de proteção às mulheres.

Para a o presidente da Associação dos Delegados de Polícia do Rio Grande do Sul (Asdep), Guilherme Yates Wondracek, os números não representam apenas estatísticas. Eles revelam uma falha estrutural na capacidade do Estado e da sociedade de interromper o ciclo da violência antes do desfecho fatal.

Cenário que se repete apesar dos alertas
Ao longo dos últimos anos, o Rio Grande do Sul ampliou o registro e a visibilidade dos crimes de violência doméstica. Houve avanços na investigação policial, no esclarecimento dos casos e na responsabilização dos agressores. Ainda assim, os feminicídios continuam ocorrendo em um padrão conhecido: a maioria das vítimas já havia sofrido agressões anteriores, ameaças ou vivia sob controle do agressor.

É nesse ponto que a avaliação de Wondracek durante o programa Bom dia, Cidade desta quarta-feira (28), na Rádio CDN, ganha centralidade no debate. Para ele, o início de 2026 evidencia que o problema não está apenas na repressão penal, mas na ausência de uma rede sólida de prevenção e acolhimento.

Preocupa muito, quando um feminicídio acontece, não falhou só o Estado, falhou também a sociedade – afirmou.

Antes mesmo de tratar da atuação policial, Wondracek faz questão de contextualizar que o feminicídio raramente é um ato isolado:

— O feminicídio não é um crime de instante. As agressões já vêm acontecendo há um certo tempo. Muitas vezes o Estado tem sido incapaz de proteger essa mulher.

Segundo o dirigente, a atuação policial, embora essencial, ocorre geralmente quando a violência já alcançou um grau elevado. A polícia registra ocorrências, solicita medidas protetivas, investiga e prende o agressor, mas isso acontece, na maioria das vezes, quando o risco já é extremo.

Existe tão somente a atuação da polícia. Ela tenta evitar durante o trajeto das agressões, com medidas protetivas, tornozeleira eletrônica, enfim. Mas muitas vezes o desfecho é trágico – avaliou durante a entrevista.

Para Wondracek, o modelo atual concentra no aparato policial uma responsabilidade que deveria ser compartilhada por diversas áreas do poder público.

Um dos exemplos dados por Wondracek é a Casa Violeta, espaço criado de forma emergencial após a enchente de maio de 2024 para acolher mulheres em situação de vulnerabilidade. O local chegou a abrigar cerca de 135 pessoas, entre mulheres e filhos, em um prédio desativado no Bairro Rio Branco, em Porto Alegre.

Um ano depois, essa casa foi desinstalada. Por que não permaneceu? Era mais um local de abrigo. Hoje, não temos uma rede estruturada de acolhimento às mulheres – questionou.

Reveja a entrevista

Segundo ele, a inexistência de locais permanentes faz com que muitas vítimas permaneçam no ambiente de violência por não terem para onde ir:

— Muitas não têm emprego, não têm renda própria, não têm profissão. Precisariam de um programa que desse autonomia.

Outro ponto crítico é a falta de tornozeleiras eletrônicas, instrumento considerado essencial para monitorar agressores em casos de violência doméstica. Embora juízes determinem com frequência o uso do equipamento, a quantidade disponível é insuficiente.

São duas ou três tornozeleiras por região policial. Em poucos dias, acabam. Às vezes, é preciso buscar a centenas de quilômetros – relatou.

Para ele, a falha logística compromete a eficácia de uma das principais ferramentas de prevenção.


Um início de ano que exige respostas
Com 10 feminicídios registrados em janeiro, 2026 começa de forma mais violenta do que os anos anteriores. O dado contrasta com a leve redução geral das ocorrências e reforça que esse crime segue como a face mais extrema e resistente da violência contra a mulher no Rio Grande do Sul.


Santa Maria apresenta cenário contrário ao do Estado

Apesar do Rio Grande do Sul ter registrado 10 feminicídios, Santa Maria, a quinta cidade mais populosa do Estado, não teve registros neste ano. Entre 2024 e 2025, houve duas mortes de mulheres, enquanto em 2023 não houve registro de caso no primeiro mês do ano.


Para a titular da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam), Elisabeth Shimomura, não há apenas um motivo ou origem para explicar os números, pois a violência sofrida pela mulher é multifatorial.

– Não temos um único motivo ou uma origem determinada para explicar esse número assustador de feminicídios no Estado. A violência doméstica tem como causa principal a questão cultural, onde o homem acredita que a mulher é seu objeto e que tem posse dela – comenta a delegada.

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Shimomura revela que houve aumento no número de ocorrências e também solicitação de medidas protetivas em Santa Maria. 

– Tivemos um aumento na solicitações de medidas protetivas de urgência por parte das mulheres.Simultaneamente tivemos um grande aumento de prisão desde o início do ano passado, principalmente por descumprimentos dessas medidas – explicou.


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